(Source: , via waisefuther)

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Diário.

III

“2 de Setembro, 1930. À noite, jogado na rua, me escondendo dos homens da lei.

Lembro-me de Teseu. Vago pela cidade, à procura de um fim. O fio que me prende são meus vícios;

Durante a manhã saí daquela poça de lama e tentei fazer-me em terras menos lodosas. Algo germinou em mim durante a estadia, creio que se chama asco.

Tudo nessa cidade remete somente a ela mesma. Corners, whores, what else. Não consegui escapar. Dinheiro não me falta, muito menos o despudor, mas dela não me é permitido sair.

Sou o aborto do concreto armado. A cidade com suas pernas putas abertas deixou-me escorrer por entre sarjetas e lembranças mortas. Não vivo, não sobrevivo, sou enquanto ela é, madre vadia.

Seus toscos dedos afagam o rancor de toda uma sociedade, vil, dada ao fracasso e a autodestruição. “

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Diário.

II

“29 de Agosto, 1930 anos depois de um certo homem ser crucificado.

Não sei bem a que compasso consegui me fazer ao meu quarto. Devo ter feito quatro paradas para despejar à rua com meu trato gástrico e conhaque. Escrevo mecanicamente e minhas letras (fazem) [ilegível] mas segue o relato:

Ao início do dia acerquei-me da vida da morena jovem com a senhoria. Soube que ela não recusaria umas tantas obscenidades por uns trocados. Tão cedo quanto pude, a avistei colocando ao escasso sol umas tantas roupas.

Sua aparência inspirava depravação no mais recatado dos mortais. O vento vinha-lhe de frente e moldava suas pernas, e o que havia entre elas. Sua tez morena forçava-me a inteligência com ilusões de seus gritos e gemidos, o olhar, deleite, boca escancarada enquanto o silêncio do êxtase a invadia e me fazia pulsar dentro de ti. Ah a formosura de teus braços me envolvendo em cumplicidade perante a natureza.

Fui ter com ela e nos encontramos em meu quarto. Durante esse período fiz coisas não dignas de nota.

Quando voltei ao quarto, à hora marcada, ela lá se encontrava, devidamente nua, semi-coberta naquele lençol cheio de imundície. Expressando enfado e tarefas atrasadas. Despido, fiz as honras da casa. Esforcei-me para que ela notasse isso. Tentei parecer mais másculo, mas o único ruído era a cama rangendo. Eu olhava a parede na qual a cama escorava, tentando me esconder daquilo, emptiness. Seu corpo cheirava a suor de outros homens, e agora havia o de mais um. Finalizado e um cigarro aceso, pedi para que permanecesse durante um tempo comigo.

A isso ela acatou agora percebo que foi por curiosidade, pois logo me perguntou o que seriam os papeis rabiscados sobre a mesa. Evidentemente não sabia ler, preferi dizer que se tratavam de um romance inacabado, na esperança de entretê-la pelo menos uma vez. Mas lançou-me um olhar de reprovação, achando que era subversivo e o padre não aprovava.

Como não dei resposta a isso, ela perguntou se eu teria mais dinheiro para amanhã. Cega ganância. Eu a mandei vir sempre que precisasse, sabendo que assim viria todos os dias.”

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Diário.

I

“28 de Agosto de 1930 da nossa Boa Era Cristã.

Imagino que agora o relógio marca três e um quarto de hora.

Cheguei a esse Cortiço por volta de meio-dia, de ontem, 27. Um lugar enlameado de terra cinzenta. Onde tudo é uma soma de cigarros terminados e roupas lavadas na pedra.

Agora, ao mover a cabeça, vejo, além de minha mesa de madeira barata, uma lâmpada extraordinária que transforma o cinza em amarelo, uma cama para solitários de madeira barata e uma mesa ao lado da cama. Cadeira não há, pelo que soube o ultimo desse quarto a quebrou em misteriosas circunstâncias, aproximei a mesa à cama para que pudesse forjar o mínimo de conforto.

Fugidio, cá estou. Você, diário mantido à dura pena da escrita, já sabe o que me aconteceu. E não lamentou por mim em momento algum. Venho a pensar que se trata de um péssimo companheiro.

Ao chegar, não fui recebido. Mandaram-me sentar em uma sebosa mesa à cozinha, enquanto a adiposa senhoria picava, despelava e mergulhava em água minhas palavras, minhas histórias e meus ideais sobre o mais sofisticado presente a se dar ao seu amante.

De alguma forma pude passar como mais um entre tantos. Todos os que olharam sabiam que era de fora desse círculo. Por mais que meus anos de despudor tenham marcado o rosto, não cumpria a norma de ter nascido em uma choupana nas mãos empoeiradas de uma parteira. Teria também de acreditar que o que ela faz, com a garrafa vazia de whiskey barato no peito do recém-nascido, me preveniria de qualquer déficit pulmonar. Que modo de pensar mais rústico.

Modo de pensar rústico, sim, mas sempre estive mergulhado em tudo isso. Tanto que não fiz atraso nenhum para me juntar a dois inquilinos que me ofereceram conhaque e cigarros. Desse momento em diante, só me lembro do vislumbre de uma bela jovem, na idade em que, de onde eu vim, elas se casam. Tratou-se somente de uma luz na embriaguez, que logo foi embora quando a garrafa parou em minhas mãos novamente.

Do resto, pouco lembro, certamente fiz uns amigos e fui apresentado para todos.

Ah, lembro-me que aquela luz na embriaguez perseguiu-me no sono na forma de uma bela e comum e jovem morena.”

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